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Quando tudo que você precisa é diminuir a velocidade mas a vida não te deixa parar. Hoje, um ano depois de dar o primeiro passo em direção a uma vida com mais propósito, te conto o que eu aprendi pelo caminho e onde ainda quero chegar.

 

Ato 1

Era um fim de domingo chuvoso em abril de 2017, eu estava desabafando com minha irmã ao telefone já que mais uma vez me encontrava a beira de pedir demissão de um emprego que não me satisfazia pessoalmente. Sabe aquela situação complicada onde você não pode abrir mão do seu salário (afinal os boletos não se importam se você é feliz e completa), mas simplesmente não tem mais vontade nenhuma de levantar da cama e ir trabalhar? Pois é.

Minha irmã me sugeriu fazer o curso Catálise da Fundação Estudar. Um ano antes, ela tinha participado do programa e mudado sua vida de cabeça para baixo. Eu, muito descrente mas já desesperada, resolvi pesquisar mais sobre o curso. Para minha surpresa (não sei se você acredita em coincidências do destino), mas era exatamente o último dia de inscrição para a próxima turma.

Seriam três dias intensos e eu não fazia a menor ideia do que me aguardava. Foi a primeira vez que me falaram para “confiar no processo”. Durante o primeiro dia, refletimos, individualmente e em exercícios de escuta ativa, sobre nossas histórias, como os outros nos veem e ainda tentamos pensar em quem somos nós.

“Uma vida não refletida não vale a pena ser vivida.”

Sócrates

A essa altura do campeonato, eu estava achando aqueles facilitadores totalmente malucos e não acreditava como poderia entender em três dias o que não entendi em uma vida. Mas não desisti, e voltei no dia seguinte.

“Quem tem um ‘porquê’ enfrenta qualquer ‘como’.”

Viktor Frankl

O segundo dia era dedicado ao famoso “propósito”, a missão era descobrir qual é o nosso porquê. Para isso precisamos refletir sobre o que nos move, o que nos faz felizes, o que nós valorizamos e finalmente, o que nós queremos mudar no mundo.

O último dia foi focado em como transformar em realidade tudo aquilo que havíamos colocado no papel nos últimos dois dias. Como posso colocar o meu propósito em prática? Qual é a minha marca pessoal? Como me desenvolver? Por onde começar?

“A perspectiva que você adota para si afeta profundamente a forma como você vive a sua vida.”

Carol Dweck

O dia terminou com a missão de montar um PDI (Plano de Desenvolvimento Individual) para “mudar minha vida”, com pontos a desenvolver, desafios, indicadores, possíveis mentores, suporte, e prazo. Não quero parecer muito romântica, nem falar que existe uma solução mágica e sua vida vai melhorar de um dia para outro.

Mas…

Na semana seguinte comecei a fazer pequenos movimentos, me matriculei em uma academia perto de casa, fiz uma aula experimental de yoga, baixei o aplicativo de meditação Headspace, e o mais importante, marquei uma consulta com uma nova terapeuta. Em um mês tomei coragem para finalmente pedir demissão.

Curso Catálise da Fundação Estudar: autoconhecimento na prática em abril de 2017.

Participantes do curso Catálise – Autoconhecimento na Prática da Fundação Estudar em abril de 2017.

 

Ato 2

Se você me conhece ou já leu algum dos meus textos, provavelmente já percebeu que eu estou sempre envolvida em mil iniciativas ao mesmo tempo e buscando conhecer novas pessoas. A melhor parte de participar de algum programa da Fundação Estudar é entrar para o Núcleo, um grupo só de “gente boa” como eles mesmos gostam de chamar. O fato é que em um dos muitos e-mails e mensagens com oportunidades que recebemos regularmente por essa rede de contatos fiquei sabendo do certificado de pós-graduação em Gestão de Inovação Social do Amani Institute Brasil.

O currículo do curso parecia incrível e perfeito para alguém como eu, que não sabia por onde começar mas tinha uma certeza: meu emprego dos sonhos envolvia fazer o bem e trabalhar com pessoas que também lutam por um mundo melhor.

Um dos principais pilares do programa é aprender na prática a metodologia ASIF (Amani Social Innovation Framework) e desenvolver o nosso próprio projeto de inovação social. Aprendemos os oito passos para criar uma nova ideia e novamente ouvimos a temida expressão “confie no processo”. Toda a metodologia é baseada em não pularmos etapas e seguir exatamente como indicado.

Amani Social Innovation Framework

Resolvi desenvolver meu projeto com Giovanna Garcia, nos conectamos desde o início por termos histórias muito parecidas e lutarmos pela mesma causa: empoderamento feminino.

Foi um enorme desafio seguirmos os passos do ASIF, pois nós duas temos o perfil de personalidade ESTJ, o que significa que pensamos demais e julgamos todas as situações (muitas vezes até precipitadamente). Não posso dizer que foi fácil simplesmente seguir nossa intuição e largar padrões de comportamento do passado. Tudo começou com uma ideia louca de fundar nossa própria escola de marketing feminista e combinar nossas duas paixões: igualdade de gêneros e marketing. Mal imaginávamos que ao começar nossa pesquisa tudo mudaria.

A partir da análise da nossa árvore de problema, decidimos focar em um dos efeitos da desigualdade de gêneros, que é saúde e liberdade sexual e reprodutiva das mulheres. Passamos meses completamente imersas no assunto, lemos livros sobre sexualidade feminina, assistimos a diferentes palestras, conversamos tanto com especialistas como com mulheres comuns e fizemos até aulas de pole dancing. Como podemos ajudar mulheres a serem livres sexualmente? Como podemos promover a liberdade sexual feminina?

Problem Tree Analysis

Problem Tree Analysis

Análise da Árvore de Problema: discriminação contra meninas e mulheres.

Análise da Árvore de Problema: discriminação contra meninas e mulheres.

De acordo com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, para alcançarmos a igualdade de gêneros precisamos garantir direitos sexuais e reprodutivos a todas as mulheres. Isso significa que todas as experiências sexuais devem ser agradáveis, seguras e livres de coerção, discriminação e violência.

A verdade é que descobrimos que o problema é muito maior do que parece. Existe uma falta de conhecimento acadêmico sobre sexualidade feminina. E quando temos dados, são altamente questionáveis pois nem mesmo os pesquisadores conseguem chegar a um consenso.

Você sabia que a anatomia completa do clitóris só foi descoberta em 1998? Você sabia que 50% das mulheres brasileiras não conseguem atingir o orgasmo? Você sabia que mais da metade das mulheres brasileiras não usa camisinha?

A sexualidade da mulher ainda é um tabu em nossa sociedade e quase nada sabemos sobre este universo tão complexo, pois há pouco estímulo para a produção de pesquisa acadêmica sobre o tema. Acreditamos que a emancipação e o empoderamento da mulher passam pela sexualidade.

Sabemos que acesso à informação de qualidade é fundamental para criarmos um mundo mais justo e seguro para as mulheres, por isso decidimos criar a 98 Think+Do com o objetivo de reunir especialistas de diferentes áreas para pensarem juntos e co-criarem soluções, conteúdo e projetos que visem informar e educar a população brasileira sobre a saúde e os direitos sexuais da mulher.

Para validar nossa ideia, criamos um protótipo digital: um site institucional e uma página no Facebook com o objetivo de apresentar a ideia ao maior número de pessoas possível e engajar especialistas e também pessoas comuns com a intenção de receber feedbacks. Com anúncios no Facebook atingimos mais de cinco mil pessoas em uma semana e interagimos com dezenas de interessados em contribuir com nosso projeto, por exemplo, uma revista feminista portuguesa se interessou em co-criar conteúdos sobre sexualidade feminina.

Nosso protótipo digital

 

O projeto era muito interessante e parecia ter tudo para dar certo. Porém, tínhamos apenas um problema: nós não sabíamos realmente nada sobre sexualidade e saúde feminina e não conseguíamos tirar a ideia do papel.

 

 

Ato 3

2017 chegou ao fim e senti uma forte necessidade de desacelerar. Passei um mês de férias na Bahia refletindo sobre todas as mudanças que vivi neste ano. Voltando para São Paulo, Giovanna e eu retomamos as conversas sobre nosso projeto, agora com um olhar mais distante e prático.

Sobrevivemos a nossa primeira experiência com a metodologia ASIF e estávamos prontas para iniciar um projeto que realmente estivesse alinhado com nossos objetivos de carreira e conhecimentos teóricos.

Giovanna estava buscando recolocação no mercado de trabalho e agora é inclusive Gerente do Programa de Parceiras Internacionais da Resultados Digitais. Já eu, estava começando a pegar projetos de Marketing Digital em parceria com minha mãe, Cristina Lessa, que tem mais de 30 anos de experiência trabalhando com tecnologia e é hoje desenvolvedora de sites e lojas virtuais.

Durante minha temporada de descanso defini algumas metas para o ano de 2018, uma delas é que quero me aproximar cada vez mais do ecossistema de inovação e empreendedorismo de impacto. O trabalho criativo e estratégico de marketing e comunicação me trazem grande prazer e sei que ainda tenho muito a aprender.

Dessa vontade, surgiu a ideia de começarmos com calma a Juntas Consultoria para Empreendedoras.

Juntas Consultoria para Empreendedoras

Apenas 20% dos negócios sociais no Brasil são liderados por mulheres. 62% das mulheres acreditam que encontram barreiras ao conduzir seus negócios sociais por causa de seu gênero. Acreditamos na força da mulher brasileira e queremos trabalhar para que cada empreendedora social atinja o máximo do seu potencial.

Mais que clientes, buscamos parceiras. Juntas, desenvolveremos soluções para escalar e mensurar o impacto social dos negócios, encontrar o modelo financeiro ideal, prospectar novos clientes e parceiros e fortalecer a marca.

Só o tempo dirá onde essas iniciativas nos levarão! Começaremos criando conteúdos sobre o papel dos negócios sociais no apoio ao empoderamento feminino no Brasil. Traremos novidades sobre impacto social, empreendedorismo, vendas e negociação, marketing e comunicação, cursos, eventos e muito mais.

Nossa temporada com o Amani termina este mês, porém sinto que minha jornada está apenas começando. Cada dia que passa se abre um universo de novas possibilidades e estou motivada a descobrir ainda mais sobre como utilizar meus conhecimentos e habilidades em marketing para fomentar o ecossistema de negócios sociais no Brasil e no mundo.

 

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